quarta-feira, 16 de maio de 2012

Rastreio de Voz do CAPTA: O que se conclui da voz do povo


           Olá seguidores atentos do blogue do CAPTA (será?). Após estes tempos de ausência, que se podem justificar com o ritmo agitado das nossas vidas, finalmente voltamos a dar notícias. E estas trazem água no bico! Na semana do dia mundial da voz (16 de Abril), o CAPTA promoveu rastreios de voz gratuitos. Em termos de adesão foi um verdadeiro sucesso, ou não estivéssemos nós numa época em que é preciso aproveitar as oportunidades que surgem. O rastreio permitiu reunir uma boa dose de dados relativos à voz que se mostram pertinentes para trazer mais alguma iluminação ao mundo. É hoje nosso objectivo divulgar como param as modas no que toca à colecção Primavera/Verão das vozes que nos chegaram, por isso aqui fica uma tabela que resume as principais apreciações.

         
       Estes são dados extraídos das anamneses e avaliações efectuadas durante o rastreio, tendo sido compilada a tabela com as que se mostraram mais pertinentes. 

         Como se pode verificar, do universo de pessoas que participaram no rastreio, a maioria era do sexo feminino. Associado a isto está o facto de a profissão mais encontrada ser a de professor e das suas variantes (educador, formador, etc). esta ocorrência vai ao encontro dos dados já existentes relativos ao facto de as mulheres terem mais problemas vocais devido a mau uso da voz, assim como de a profissão mencionada ser uma das que mais apresenta problemas vocais e que procura a terapia da fala nesse âmbito. Além disto, os dados reunidos em relação aos hábitos de fala, às exposições ambientais e às variações vocais corroboram especialmente com o factor profissão. Sendo a maioria dos participantes no rastreio da área da educação e tendo em conta as exigências da mesma actualmente, é possível deduzir (e neste caso verificar) que os hábitos de fala prejudiciais sejam elevados nesta classe, assim como as variações vocais (diárias e com diferenças entre período escolar – período de férias) e a exposição a factores ambientais desfavoráveis a uma boa saúde vocal.

         Por outro lado, os hábitos tabágicos foram consideravelmente positivos. A maioria dos participantes nunca fumou e todos aqueles que tiveram esse (mau) hábito anteriormente, abandonaram-no e não fumavam aquando da realização do rastreio. Dado que o tabaco constitui um dos piores agressores do tracto e mecanismo vocal (não mencionando tudo o resto), devemos aplaudir esta boa prática de não praticar o mau hábito.

        Relativamente aos hábitos de ingestão de líquidos e sono, as aferições foram menos sorridentes. A maioria dos participantes não bebe o 1,5L de água recomendado (para tanta e tanta coisa) e isto torna-se ainda mais preocupante quando essa maioria é constituída por profissionais da área da educação que têm exigências vocais mais acentuadas. Vamos é fazer aqui um parêntesis pois ingestão de líquidos para hidratação não tem que se obrigatoriamente água. Chás e sumos naturais também contam, mas para os presentes objectivos, a ingestão desses líquidos foi contabilizada como água (só para facilitar a vida aos pobres).

         As noites mal dormidas, devido a horas insuficientes e/ou a sonos turbulentos e não seguidos, também são um factor que pode prejudicar o bom desempenho vocal. Se o corpo se ressente do cansaço, como poderia a voz ser deixada à margem disso? Mais facilmente terão sinais de fadiga vocal se não tiverem horas de sono e descanso suficientes.

      Entrando agora num plano mais técnico, associado à avaliação propriamente dita, encontramos o problema da maioria da população: uma respiração e suporte aéreo desadequados às exigências vocais, agravando-se isto, mais uma vez, no caso dos “profissionais da voz”. Aqui fica uma dica terapêutica para os mais leigos: para um bom desempenho vocal, com maior e melhor uso das potencialidades do aparelho fonador, é INDISPENSÁVEL a existência de um bom suporte aéreo e de um tipo e modo de respiração adequados. Nesta matéria, pode dizer-se que os tipos mais adequados serão o costo-diafragmático (abdominal-intercostal) ou o abdominal, sendo que o primeiro é o mais exequível. O tipo costo-diafragmático implica, como o nome indica, a implicação do músculo diafragma directamente na respiração, permitindo a sua movimentação um aumento do espaço torácico para dilatação pulmonar e enchendo estes da base para as laterais e só por fim superiormente. Como se pode verificar do aferido nas avaliações, 92% dos participantes realizava uma respiração costal-superior, mais superficial e sem recorrer ao trabalho do diafragma. Esta é uma das causas de mau uso vocal, promovendo o esforço laríngeo e uma má coordenação pneumofonoarticulatória (respiração + voz + articulação) e podendo ter consequências mais graves, como o desenvolvimento de determinadas patologias vocais. Em relação ao modo de respiração, o nasal sobrepôs-se aos restantes, o que é uma feliz ocorrência. A respiração nasal é muito importante, nomeadamente no que toca à filtração e aquecimento do ar que inspiramos (ninguém quer impurezas nem resfriados!).

    Terminamos em beleza com um dos objectivos principais da avaliação vocal que é determinar, perceptualmente, a qualidade vocal. É de salientar que a voz pode ter várias das características existentes para classificá-la simultaneamente, ou seja, uma mesma voz pode ter conjugadas características de rouquidão e soprosidade, rouquidão e tensão, outros e até mais que duas. Estas características são depois atribuídas pelo terapeuta à voz do paciente segundo uma escala de gravidade que vai de 1 (ligeiro) a 3 (grave). Não entrando nesses pormenores mais específicos, podemos verificar que a maioria dos participantes no rastreio apresentava vozes com rouquidão (sem distinguir a gravidade de cada caso), sendo que muitos também apresentavam soprosidade, associada à rouquidão ou isoladamente. Isto é de deixar um, ou mesmo os dois pés, atrás já que algumas destas características, mediante o grau de atingimento apresentado, poderão indicar o desenvolvimento de uma patologia vocal ou mesmo que esta já se encontra instalada. Mais uma vez, para os profissionais da voz isto é particularmente alarmante já que poderá pôr em causa o desempenho das suas funções.
     É de salientar que esta classificação, sendo perceptual, é subjectiva e deve por isso ser sempre complementada com dados acústicos e objectivos que permitam fazer um quadro mais preciso das capacidades e limitações dos pacientes.     
    
       Não se pretendia apresentar nada digno de artigo científico (era bonito, mas não vai dar!). O intuito era  mesmo fazer uma chamada de atenção sobre aquilo que se tem como garantido e ao que nem sempre se dá o melhor uso nem o devido valor. A voz é mais que um instrumento de trabalho, é uma importante ferramenta de comunicação e sociabilização. É parte da nossa personalidade na perspectiva do outro e parte do nosso reconhecimento enquanto “eu”. Foram indicados ao longo deste post alguns “Do’s and Don’ts” a ter em conta para manter uma voz saudável. Além disso, deu-se um lamiré daquilo que é a avaliação vocal terapêutica, que não tem de ser apenas uma prática de reabilitação para quando já existe um problema instalado pois a prevenção também pode passar por ela. A reter é mesmo o facto de dever valorizar-se a voz e a sua saúde porque se ela fizer greve, vão sentir-se pior do que quando é a CP a fazê-la. Podem apostar.